Gangamata Goswamini

Por Kalachandji Devi Dasi e Gitamrta Devi Dasi

Saci (lê-se “Shatchi”) Devi viveu entre os séculos XVII e XVIII e era filha única de Naresha Narayanam, raja (rei) de Puntiya, distrito de Rajashahi, que fica hoje na região de Bangladesh. Desde a infância teve acesso a uma educação de muita qualidade e devido à excepcional inteligência tornou-se perita em gramática e poesia. Ela foi, aparentemente, a primeira mulher no Vaishnavismo de Caitanya a construir uma reputação como devota devido apenas ao seu conhecimento e conquistas espirituais – e não por parentesco, como suas predecessoras – e a fundar sua própria linhagem espiritual.

Muito dedicada ao estudo das escrituras sagradas, Saci desenvolveu uma grande devoção a Krishna, procurando sempre manter-se em serviço devocional ao Senhor.

Conforme foi chegando à juventude, seu pai e sua mãe logo preocuparam-se em arranjar-lhe um bom noivo, com quem deveria casar-se para futuramente governar juntos o reino que era de seu pai, entretanto, Saci recusava-se a aceitar qualquer pessoa como noivo e dizia querer dedicar-se apenas ao serviço ao Senhor Madhanagopal (Krishna). Embora desgostosos com a ideia de não manterem mais a linhagem direta, os pais de Saci entenderam que nada poderiam fazer para que a filha mudasse de ideia. Pouco depois, seus pais vieram a falecer deixando o governo nas suas mãos.

Após um período cumprindo os deveres administrativos e sentindo fortemente desejo de se desenvolver espiritualmente, Saci resolveu sair para fazer uma peregrinação aos lugares sagrados. Deixando o governo nas mãos de alguns parentes, se dirigiu a Jagannatha Puri. Embora tenha sentido muitas realizações ao chegar em Puri, Saci ainda não estava completamente satisfeita e percebeu no fundo de seu coração que ainda faltava algo. Sendo assim, continuou sua peregrinação até Vrindavana Dhama.

Em Vrindavana, Saci conheceu Haridas Pandita Goswami, discípulo de Ananta Acharya e grande devoto de Goura-Nitay. Logo que o encontrou, Saci entendeu que se tratava de uma pessoa santa e pediu a ele que a iniciasse no cantar dos Santos Nomes. Haridas negou-se a iniciá-la sob o argumento de que, sendo criada como princesa, ela não conseguiria abrir mão dos luxos de uma vida rica para praticar serviço devocional em Vrindavana e aconselhou-a a retornar e praticar serviço devocional em sua casa. Entretanto, Saci permaneceu em Vrindavana, assumindo uma vida simples e Haridas aconselhou-a a colocar qualquer senso de orgulho de lado, seguir a vida de mendicante (madhukari) e dedicar seu tempo a realizar todos os tipos de serviço a Krishna, instrução que ela seguiu fielmente. Ao ver toda a dedicação de Saci em praticar serviço devocional em Vrindavana abdicando de todas as suas riquezas, Haridas finalmente deu-lhe iniciação no templo de Govindaji.

Após um ano de atividade espiritual intensa, Saci Devi foi para o Radha Kunda a pedido de seu guru, viver junto com sua irmã espiritual Lakshmi Priya, para que esta a auxiliasse em seu desenvolvimento espiritual. Lakshmi Priya cantava 300.000 vezes o maha mantra Hare Krishna todos os dias, e logo essa prática passou a fazer parte da rotina de Saci Devi também. Além do cantar intenso, as duas circumbulavam a Colina de Govardhana todos os dias.

Quando percebeu que Saci Devi já havia avançado muito em sua vida espiritual, seu guru a enviou até Purishottam Kshetra para que pudesse recuperar a casa de Sarvabhauma Battacharya, associado do Senhor Chaitanya, que estava abandonada desde que ele havia voltado ao mundo espiritual. Assim, Saci Devi retornou a Jagannatha Puri para restaurar na casa em ruínas de Sarvabhauma prabhu e pregar sobre as glórias do Senhor Chaitanya, conforme orientada pelo guru.

Já em Puri, ela fez o voto de kshetra-sannyasa (ordem de vida renunciada). Como grande perita nas escrituras sagradas, passou recitar o Srimad Bhagavatam publicamente e logo atraiu grande audiência, sendo reconhecida por sua eloquência e devoção. A manutenção da antiga casa de Sarvabhauma e o serviço às Deidades de Radha-Damodara Shalagrama-shilas dependiam da mendicância de Saci, até que o rei do estado da Orissa, Mukundadevi, sonhou com o Senhor Jagannatha o instruindo para doar terras para melhorar o serviço de Saci.

Certa vez, no auspicioso dia de Varuni Ganga onde milhares de pessoas vão banhar-se no Rio Ganges em busca de purificação, Saci Devi desejou também ir banhar-se no Ganges, porém não poderia sair de Puri devido a seu voto e o serviço às deidades. Entendendo o desejo em seu coração, o Senhor Jagannatha apareceu para ela num sonho dizendo-lhe para ir no meio da noite se banhar num tanque de banho situado em Puri, que na época era conhecido como Shweta Madhava. Seguindo as ordens do Senhor Supremo, Saci foi banhar-se no Shweta Madhava, e logo que entrou na água teve visão da própria Ganga Devi. Em seguida, uma enxurrada surgiu do nada levando-a para dentro do templo de Jagannatha Puri. Dentro do templo ela continuou vendo o Ganges, bem como as pessoas banhando-se com alegria em suas águas. Por conta dessa ocasião, o Shweta Madhava passou a ser conhecido como Shweta Ganga (“o Ganges branco”).

O barulho que Saci ouvia das pessoas alegres banhando-se no Ganges também foi ouvido pelos guardas do templo, que logo foram avisar os pujaris (sacerdotes responsáveis pela adoração nos templos) e o rei de Orissa, Mukundadevi. Ao receber o relatório dos vigias, o rei ordenou que abrissem as portas do templo, porém, ao fazerem isso os pujaris encontram apenas Saci Devi sozinha. Sem entender como aquilo era possível, os pujaris assumiram que se tratava de uma ladra que estava interessada em roubar os objetos de valor do templo e, assim, os guardas levaram-na presa.

Naquela mesma noite, Mukunda Dev teve mais um sonho em que o Senhor Jagannatha lhe falou sobre as glórias de Saci, ordenando que ele a libertasse imediatamente da prisão e, juntamente com os sacerdotes, lhe pedisse perdão e se abrigasse em seus pés de lótus, aceitando-a como guru.

Maravilhado, o rei dirigiu-se à prisão logo ao amanhecer juntamente com os sacerdotes. Lá chegando Mukunda Dev e os sacerdotes prestaram reverências a Saci Devi e logo o rei pôs-se a contar-lhe o sonho com o Senhor Jagannatha. Em seguida, ele humildemente pede que ela o aceite como discípulo, seguido por seus sacerdotes. Saci iniciou o rei e seus sacerdotes e, como foi banhada pela água que jorra e é escoada dos pés de Jagannatha, a partir de então passou a ser conhecida como Gangamata Goswamini.

A casa de Sarvabhauma Battacarya é, agora, mais conhecida como Ganga Mata Math e é um dos locais mais representativos do Vaishnavismo em Puri. Além disso, alguns siddha-babajis foram iniciados na linha discipular de Gangamata Goswamini, que está ligada a Gadadhara Pandita e se distingue pelo uso da tilaka (marca de argila na testa) no estilo nupur (na forma da letra U com, no seu interior, um ponto vermelho na base e uma linha vertical escura).

Bibliografia:

https://iskconvrindavan.com/2019/06/12/ganga-mata-goswamini-appearance-day/ , acesso em 25 de maio de 2010

https://gaudiyahistory.iskcondesiretree.com/sri-gangamata-gosamini/ , acesso em 25 de maio de 2020

https://www.thegaudiyatreasuresofbengal.com/2018/12/28/puthia-rajbari-palace-residence-princess-saci-devi-gangamata-goswamini/ , acesso em 26 de maio de 2020

JESTICE, Phillys G. (ed.). Holy People of the World: A Cross-cultural Encyclopedia (Volume 3). California, EUA: ABC-CLIO, 2004.

BRZEZINSKI, Jan. Women Saints in Gauḍīya Vaiṣṇavism. In: ROSEN, Steve J. (ed.) Vaiṣṇavī: Women and the worship of Krishna. Delhi, India: Motilal Barnasidass Publ., 1999, p. 59-85.

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